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Revista Guitar Player (Ano 1 Nš7) - Julho 96
HELENA
MEIRELLES
Alceu
Toledo Jr Aos 72 anos, Helena
Meirelles é um talento lapidado às margens dos rios e matas do Mato Grosso do
Sul, onde viveu a maior parte de sua vida. Exímia violeira, foi descoberta
praticamente por acaso em 1986, quando saiu em busca de sua família depois de
mais de trinta anos sem notícias. Depois, em 1993, foi destaque da seção
"Spotlight", da Guitar Player americana. Helena acaba de gravar o
CD Doce Bicho do Mato, com produção de Fernando Faro, e tem lotado as casas onde se apresenta
ao lado do filho Francisco e mais dois acompanhantes. Sua vida parece fábula
e seus sonhos parecem estar se realizando, afinal, até outro dia seu
cotidiano resumia-se a cozinhar para a família e para peões boiadeiros. Nesta
entrevista exclusiva, Helena conta um pouco de sua trajetória e explica como
foi que se transformou na primeira-dama da viola. |
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Como foi a gravação de Doce Bicho do mato? Graças a Deus foi bem, gravei com
bastante saúde e espero que faça bastante sucesso. As composições são todas suas? Algumas são minhas, outras são de
gente que morreu há muito tempo, pessoas desconhecidas. Antigamente nada era
registrado como hoje e eu esqueço também os nomes. Estou meio desparafusada da
cabeça e às vezes esqueço os nomes. Nesse disco eu não quis cantar porque estou
com problemas de voz. Quando começo a cantar vem a tosse. No último dia de
gravação quase passei mal. Meu coração disparou. Fico nervosa demais. Por que? Não sei. O médico falou que eu tinha
que me controlar, mas eu não tenho controle. E eu tenho problemas de coração. Como a senhora compõe suas músicas? A música pra mim vem rápido. Sento no
chão e vejo boiadeiro assobiar, gravo aquilo e depois tiro no violão. De
repente, já fiz a música. Essas músicas sempre refletem sua região? Isso. O sistema lá do Mato Grosso do
Sul é o mesmo do Paraguai. Nós nascemos e nos criamos ouvindo essa música de
fronteira. Aprendi misturando coisas de paraguaiada com o que eu ouvia lá no
Mato Grosso do Sul. Nosso ritmo preferido é a polca paraguaia. Eu tenho sangue
de paraguaio, índio e mineiro. Eu puxei mais o lado paraguaio. Cantei muito em
guarani também. Como foi que a senhora começou a tocar? Meu avô acolhia muitos paraguaios na
casa dele. E eles eram muito tocador. Aí, meu irmão e meu tio aprenderam a
tocar violão. E eu adorava! De noite, eu ficava olhando eles tocarem. Gravei
tanto afinação para acompanhar como para solar. Aprendi a bater o rasqueado
deles sem ninguém me ensinar. Mas meu pai e minha mãe não queriam que eu
aprendesse. Porque naquela época, o Mato Grosso do Sul era um senão bruto, lá
só tinha bicho brabo. E nós fomos criados assim no meio da bicharada. A gente
tinha medo de tudo, de bicho, de gente, de automóvel. A gente pensava até que
carro era bicho. A primeira vez que andei de carro foi à força. Eu gritava,
mordia, dizia que aquilo era bicho. Só depois fui ver que carro era para a
gente passear. Bem, comecei a ver os paraguaios tocar e ficava com vontade. Aí,
meu pai e minha mãe disseram que violão era coisa para homem e que se eu
tocasse eles iriam cortar meu dedo. Eu ficava com medo, porque naquele tempo
havia respeito, não era como hoje em dia. Havia um respeito severo mesmo. Meus
pais achavam que se eu tocasse violão eu iria me esfregar em homem. Meus pais
iam pra roça e eu fui aprendendo com um violão que ganhei de um paraguaio. Ele
foi embora e deixou o violão pra mim. Eu o arrastava por todo o canto até que
um dia ele quebrou. Quando meus pais saíam, eu ficava com uma irmã e ela não
contava nada para eles. Então, ela tinha medo e não falava nada, porque quando
a gente apanhava era com pedaço de pau, rabo de tatú, não era com a mão não.
Aí, um dia, meu tio chegou do Pantanal e deixou a comitiva na ronda para fazer
almoço. E ele estava com saudades de um violão que deixava lá em casa. Ele
afinou, tocou uma moda e fiquei coma maior vontade de tocar também. Então, pedi
para tocar. "E você toca", ele perguntou. "Toco, um
pouquinho", respondi. "Então vai pegar o violão, sua merda, mas se
você não tocar vai apanhar". Levantei, peguei o violão. Ele solou e eu
fiquei no rasqueado. Depois eu solei e ele me acompanhou. Ele não acreditou que
aprendi sozinha e ficou todo feliz por ter uma sobrinha que tocava. Depois,
quando eu já era mocinha, ia tocar em baile de peonada, em festa... Como se chama essa região onde a
senhora nasceu? Estrada Boiadeira. Fiquei lá até
casar. E quando meus pais descobriram que eu tocava não teve mais jeito de me
segurar. Depois, casei e meu marido não queria que eu tocasse. Disse então que
eu não havia nascido para ser uma mulher triste e fui embota. Larguei dele.
Voltei para casa de minha mãe e depois fiquei com um paraguaio, tive mais dois
filhos com ele. Mas ele arrumou uma amante e larguei dele também, porque eu não
sou mulher de levar canga no pescoço. Num admiti isso. Sou uma mulher que tocou
em zona, em casa de mulherada, farreei muito, bebi muito, mas gosto de
respeito. Fiz o que quis mas tenho caráter de mulher. Fiz muita putaria, mas
quando arrumei um companheiro não era para ser desrespeitada. Hoje, estou com
um companheiro há mais de trinta e oito anos, foi ele quem me tirou da zona,
mas exijo respeito. Ele também quis me proibir de tocar, de dançar, mas eu
disse não. Eu sou de falar besteira com todo mundo, mas gosto de ser
respeitada. Pintei e bordei, andei no meio da boiaderama, mas gosto que me
aceitem como sou. Porque senão eu tinha ficado na casa das mulheradas, que é
lugar de gente sem-vergonha. Como foi que a senhora ficou
conhecida fora do Mato Grosso do Sul? Fiquei 32 anos sumida da minha
família. Sumi, fui para o Pantanal, para o alto do Araguaia, por todo esse
mundão velho. Ai, meu filho Francisco, que toca comigo, foi crescendo e eu
sempre lhe dizia que tinha saudade de minhas irmãs. Eles não tinham notícias
minhas. Ah, eles já me tinham como morta, porque eu era muito bagunceira. O
Francisco então foi atrás deles em Itiquerubi e achou um sobrinho meu lá,
adiante de Presidente Prudente, em São Paulo. Lá, ele descobriu todo mundo,
menos meus pais e meu irmão mais velho, que já tinham morrido. Vendi tudo e fui
para Itiquerubi, onde soube que minha irmã Lola morava em Santo André. Fui para
lá e comecei a tocar com meus sobrinhos e meu filho Francisco. Com o tempo,
começou a juntar o povo conhecido. Um dia, meu sobrinho Mário começou a fuçar e
me levou no programa da Inezita Barroso, o "Viola Minha Mola". Isso
foi em 1986. Tempos depois, ele mandou uma fitinha para uma revista nos Estados
Unido, em 1993. Eles gostaram demais e me chamaram de a primeira-dama da viola.
Lá, reconheceram meu trabalho. O primeiro disco vendeu bem? Não sei. As pessoas me dizem que
procuram o disco e não acham em lugar nenhum. E como se sentiu ao ver uma
reportagem sobre sua música na Guitar Player americana? Saí no meio dos roqueiros de lá.
Primeiro saiu esta matéria depois saiu outra com todas as palhetas dos
roqueiros. Saiu minha palhetinha, que parece asinha de barata, no meio da
palheta dos melhores roqueiros de lá. Ai, fui numa altura tremenda. Depois
disso a gravadora Eldorado me chamou para gravar o meu primeiro disco, em 1994. Deu para ganhar um dinheiro com este
disco? Olha, menino, deu para eu comprar uns
móveis novos para minha casa. Agradeço a Deus e à gravadora Eldorado, porque eu
era uma mulher, que a bem dizer, andava com a mochilinha nas costas. É verdade que a senhora quase morreu durante a gravação do primeiro disco? É verdade. Gravei com uma pneumonia
tão forte que não fui eu quem gravou este disco, foi a minha alma. Gravei com
febre, dor de cabeça, tontura e pontada. Eu estava morrendo, não comia nem
bebia. Assim mesmo gravei. Menino, passei sem comer, passei sem dormir, passei
muita amargura, só tinha fé em Deus. Mas isso foi coisa passageira. Qual a diferença entre tocar para
peão e tocar profissionalmente? É a mesma coisa, toco com prazer, sou
fanática. Quando encontro um companheiro a gente senta e amanhece tocando. Nem
vejo a hora passar. Mas agora a coisa ficou diferente. Porque quando eu tocava
no Mato Grosso do Sul para boiadeiro e para putada a coisa era na farra, no
tiro, na bebida. Aqui não, a gente vai para um teatro e todos estão em
silêncio. Não há bagunça, não tem briga. Aqui dão mais valor. Lá, era só
começar a tocar que vinha a bagunça. Mas eu também gostava de tocar naquela
época, eu estava no embalo da bagunça. Só que se eu fosse tocar com bagunça
hoje, acho que iria morrer. Nos shows de hoje as pessoas gostam quando falo
besteira, conto histórias. E quando eu lembro de tocar o show já está no fim. E a senhora acha que ainda está
evoluindo? Acho que sim. Fazendo outras músicas,
eu lembro do tempo que eu andava no meio da boiaderama, do tempo de zoada, do
tempo que eu tomava pinga... minhas músicas pedem muito da lembrança daquilo
que já fiz. A gente lembra do passado e com o tempo passa tocar com mais
sabedoria. Em casa, o que a senhora ouve? Gosto muito de rasqueado e vanerão,
música do Rio Grande do Sul. Essa é uma música também de fronteira, coisa
ótima, coisa bonita mesmo. Até no Mato Grosso do Sul o povo gosta de vanerão,
tem sanfona, tudo que é instrumento. Há algo em comum entre a sua música e
a música feita no interior dos Estados Unidos? Tem gente que fala que sim, tem gente
que fala que não... eu sei que lá fora eles gostam muito. Sei que minha música
é bem raiz, bem regional. Na Argentina, Paraguai e Uruguai acham minha música
parecida com a deles. A senhora imagina que sua vida iria
sofrer tantas mudanças? Eu não esperava nada disso. Eu fui criada no mato e não esperava nem cair aqui em São Paulo, fazendo o que faço. Sou uma mulher do mato, não sei ler, nem escrever. Nunca fui a uma escola, minha escola foi o cabo do guatambú, o abo da enxada, lidar com bicho brabo. Mas a gente nunca perde a esperança de Deus. Sempre falei que nasci com uma rosa na minha mão. Essa rosa nunca murchou e nunca morreu. Sempre soube que minha vida não iria findar sem essa rosa se abrir na minha mão. |
Reprodução da Guitar Player Americana, outubro de 1993
Nós admiramos a elegância de suas linhas melódicas de registro
altos, sobre ritmos que mudam de 3/4 para 6/8.
Além disso, nós admiramos a elasticidade
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A BRASILIDADE UNIVERSAL DE HELENA MEIRELLES A gravadora Eldorado escolheu a dedo um produtor para trabalhar com Helena Meirelles. E o escolhido não poderia ser ninguém mais do que Fernando Raro. Atual professor de história da música popular brasileira na Unicamp, diretor do Museu da Imagem e do Som e produtor do programa "Ensaio", da TV Cultura, Faro diz que trabalhar com ela não foi nada "complicado". "Fiquei muito interessado por Helena. Afinal, ela é feita da
terra e dos bichos. Tudo que fiz foi dizer a ela: toque", diz Faro. Ele
também contou com o auxílio de Ruda Duprat - filho do maestro Rogério Duprat
para a produção de Doce Bicho do Mato, o novo CD de Helena que contém
15 músicas que nos remetem diretamente para um universo selvagem e
misterioso. Faro, que já produziu discos de Paulinho da Viola, Clementina de Jesus, Elis Regina, Adoniran Barbosa, Martinho da Vila, entre muitos outros, diz que quando trabalha com um artista, sua maior preocupação é mostrá-lo "em sua plenitude". Portanto, a música de Helena foi registrada sem efeito algum. "Não se pode emoldurar o trabalho dela em um ADEO ou em um computador. Isso não tem nada a ver", diz. Segundo ele, Helena possui uma técnica sem similar e mexer nisso seria quase uma heresia. O máximo que fez foi sugerir a inclusão de um acordeão na música "Saudades do Pai". "Com os recursos de hoje, um produtor pode ficar tentado a usar isso e aquilo, mas no caso de Helena, não poderíamos tirar a sua naturalidade." Para ele, o talento de Helena pode ser comparado, guardadas as
proporções, ao escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez. "O artista é
tanto mais universal quanto mais ele conta sobre o seu chão e o seu
quintal", explica. |